Carne cultivada e o impacto na agropecuária

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A tecnologia de produção de alimentos se renova continuamente, e um dos produtos mais promissores é a carne cultivada. Com essa técnica, tecidos de animais são recriados em laboratório a partir de células-tronco, proporcionando carnes idênticas às naturais.

Esse campo ainda tem muito a avançar, mas se demonstra uma alternativa para responder aos desafios da agropecuária. O objetivo de cientistas e investidores que se dedicam a esse modo de produção é criar comidas mais saudáveis, com menor impacto ambiental e livre de sofrimento animal.

Para os pecuaristas, a carne de laboratório pode representar, no futuro, uma concorrência no mercado de proteínas. Neste artigo, serão apresentados os seguintes tópicos:

  • O que é carne cultivada;
  • Como é produzida;
  • Carne de laboratório e os desafios da agropecuária;
  • Contestações à carne cultivada;
  • Como os agroprodutores devem se preparar para essa chegada;
  • Tecnologias da agropecuária.

O que é carne cultivada?

Também chamada de carne artificial, a proteína cultivada é uma alternativa frente à atual forma de produção de alimentos de origem animal. Em vez do abate, o insumo é obtido através de sofisticadas técnicas de bioengenharia e agricultura celular.

Nesse processo, os tecidos de vacas, galinhas, patos, frutos do mar, entre outros, são produzidos em laboratório a partir de células-tronco retiradas dos animais. Essas amostras são selecionadas e cultivadas in vitro, até se transformarem no produto final desejado. 

O resultado é uma proteína semelhante em sabor e textura às consumidas atualmente, mas sem a necessidade de criar e abater espécies durante esse processo. A única intervenção com o ser vivo, na produção artificial, seria na coleta das células.

História

As primeiras pesquisas científicas sobre carne cultivada foram publicadas em 2004, através da New Harvest, uma organização sem fins lucrativos pioneira no assunto. Tal instituto foi criado com a motivação de propor alternativas mais éticas e ambientalmente responsáveis.

Em 2013, a primeira proteína de células cultivadas da história foi apresentada ao público. O alimento foi um hambúrguer bovino, desenvolvido sob a coordenação do professor Mark Post, da Universidade de Maastricht.

No entanto, foi apenas em dezembro de 2020, em um restaurante de Singapura, que a primeira carne artificial, da marca Eat Just, começou a ser comercializada. Segundo relatos dos clientes na ocasião, a comida de laboratório foi indistinguível em sabor e textura da sua versão convencional.

Conforme o relatório Global Culture Meat Market, da Allied Market Research, publicado em abril de 2021, esse mercado foi avaliado, naquele ano, em US$ 1,64 milhões. A estimativa é que o setor atinja valores de US$ 2,7 bilhões em 2030, o que representa uma taxa de crescimento anual de 95,8%.

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Como a carne cultivada é produzida?

A produção de uma carne artificial se inicia com a coleta e o armazenamento de células-tronco de um determinado animal. Essas amostras são cultivadas em biorreatores, equipamentos nos quais as reações de alto volume e intensidade acontecem.

Nessa etapa, o material recebe as condições adequadas para se multiplicar, de forma semelhante ao que ocorre em um corpo biológico. Assim, a cultura é alimentada com todos os fatores de crescimento necessários — oxigênio, aminoácidos, glicose, sais inorgânicos, vitaminas, hormônios etc.

Com o uso de diferentes técnicas de engenharia de tecidos e agricultura celular, os organismos imaturos se diferenciam em músculo esquelético, gordura e tecidos conjuntivos que compõem a carne. Esse conjunto é, então, colhido, processado e embalado como produto final.

Todo esse processo leva, normalmente, de 2 a 8 semanas, dependendo do alimento esperado. Essa forma de cultivo em laboratório é utilizada para replicar carnes brancas, vermelhas, de peixe, camarão, entre outros. Existem empresas que estão investindo com o propósito de também desenvolver leite e produtos lácteos.

Carne de laboratório e os desafios da agropecuária

A procura mundial por novos métodos de produção de alimentos é uma resposta aos inúmeros desafios que a humanidade enfrenta. Diz respeito, essencialmente, à demanda crescente por proteínas, à sustentabilidade agropecuária e às questões éticas envolvidas no abate de animais em larga escala — um dos pilares de sustentação do vegetarianismo e veganismo.

Segundo o relatório World Population Prospects 2022, divulgado pela Organização das Nações Unidas (ONU), a população mundial deve atingir 9,7 bilhões até 2050. Conforme aponta o estudo Climate Change, Food Supply, and Dietary Guidelines, divulgado pela Annual Reviews em abril de 2021, a indústria alimentícia precisa crescer 50% até metade do século para atender a essa necessidade.

A questão é que não basta apenas aumentar a oferta de alimentos, e sim promover formas de produção que sejam mais sustentáveis. Com a maneira atual de obtenção da proteína animal, a derrubada de florestas é apontada como um dos maiores problemas decorrentes.

Conforme um estudo publicado pela revista Science, em setembro deste ano, a estimativa é que entre 90 a 99% do desmatamento nas regiões tropicais do mundo entre 2015 e 2019 tenha sido motivado pela expansão agropecuária. 

A produção de alimentos em larga escala ainda traz desafios relacionados ao consumo de água, às emissões de gases do efeito estufa etc.

Ainda que o estudo LCA of cultivated meat: Future projections for different scenarios, da CE Delft, de fevereiro de 2021, aponte que a inovação é uma alternativa sustentável em pequena escala, ainda são necessárias mais pesquisas que demonstrem como esse produto responderá a esses problemas em uma produção maior.

A pesquisa mostra que a carne cultivada bovina é pelo menos 75% mais sustentável. Isso em relação aos indicadores de emissão de CO2 e de uso de água e solo. 

Contestações à carne de laboratório

Apesar dos enormes desafios relacionados à agropecuária, ainda não é possível dizer se a carne artificial é realmente uma solução viável. Um dos estudos que questionam esse sistema é o The eco-friendly burger, publicado na Embopress, em dezembro de 2018.

Segundo a publicação, as principais pesquisas de impacto ambiental desse insumo não consideram o produto final totalmente processado, o que aumenta os gastos de recursos. Além disso, essas análises desconsideram os subprodutos agropecuários como couro, cosméticos, fertilizantes etc., trazendo imprecisão aos dados.

Uma das conclusões do artigo é que as carnes à base de plantas são provavelmente uma alternativa melhor. Isso é embasado no fato de que os impactos da carne cultivada à natureza são comprovadamente menores e que eles se aproximam cada vez mais em gosto e textura dos de origem animal, atendendo às exigências do consumidor.

Dúvidas sobre esse alimento também são levantadas pelo biologista Eric Muraille, no texto Cultured” meat could create more problems than it solves, publicado em novembro de 2019.

Segundo o estudioso, um dos problemas da multiplicação de culturas celulares em laboratório é o alto nível de esterilidade necessário para evitar a contaminação. Para o autor, o gasto com plástico e demais materiais durante esse processo é um fator que pode tornar essa produção ecologicamente problemática.

Outras questões apontadas pelo biólogo são o uso de hormônios e antibióticos necessários para seu desenvolvimento. O mesmo problema ocorre, ou pode ocorrer, na agropecuária. Para ele, ainda não é certo afirmar qual dos dois é mais vantajoso nesses aspectos.

Como os agroprodutores devem se preparar para essa chegada?

Independente se a carne de laboratório é ou não a melhor solução, é fato que o modelo de produção atual enfrenta enormes desafios. Resumidamente, o futuro depende que o aumento da produtividade caminhe lado a lado com a sustentabilidade.

Uma das formas de avançar nessa perspectiva é através da agricultura de baixo carbono. Através da adoção de diversos procedimentos, como o melhor aproveitamento do uso de fertilizantes e a otimização do manejo do solo, é possível diminuir os índices de emissão desse gás. 

Para os pecuaristas, um ponto fundamental é buscar maneiras de reduzir o metano emitido pelos rebanhos no pasto. Uma das estratégias é o aprimoramento genético dos animais e da sua alimentação, para que a digestão melhore e o abate possa ocorrer com menos tempo de vida.

Além dos positivos impactos ambientais, a redução de gases como o CO2 e o metano também traz maior competitividade ao produtor. Segundo a PwC’s Global Investor Survey, divulgada em dezembro de 2021, 79% dos investidores entrevistados afirmaram que o ESG (acrônimo de Environmental, Social e Governance) é um fator importante na tomada de decisões sobre investimentos.

Outro aspecto que colabora para que os agroprodutores se preparem frente às mudanças no mercado é o investimento na saúde animal. Formas de criação e abate menos dolorosas e monitoramento do rebanho para a prevenção de doenças são algumas das ações que contribuem nessa perspectiva.

Para todas essas tendências serem aplicadas nas fazendas, o uso de tecnologias do campo são excelentes aliadas.

Tecnologias da agropecuária

Atualmente, a digitalização das empresas é uma realidade presente em diversos setores da economia. Com a agropecuária, não é diferente. O uso de soluções 4.0 no campo possibilita maior produtividade, e se prepara para atender às exigências crescentes do mercado.

É esse o principal conceito por trás da agricultura de precisão, que traz sofisticação à produção rural através de inúmeras inovações tecnológicas. Essas soluções, viabilizadas por meio da conectividade, são capazes de criar verdadeiras fazendas inteligentes, nas quais o produtor tem muito mais previsibilidade, além de pouco desperdício.

Umas das ferramentas-chave desse processo é a Internet das Coisas (IoT). Com ela, o solo, o maquinário, as estações meteorológicas e os animais podem ser equipados com sensores smart, que mensuram diversos parâmetros em tempo real, ajudando na tomada de decisões do empreendedor. Essa tecnologia viabiliza, por exemplo, a irrigação inteligente, com uma programação automática ou semi-automática. 

Mesmo que a fazenda não tenha sinal de internet, a IoT pode ser aplicada através de serviços como o Cobertura Agro, da Vivo Empresas. Com ele, a conectividade chega a todos os cantos do país, viabilizando o uso de dispositivos conectados no campo. 

Outro recurso que se populariza cada vez mais são os drones agrícolas. Por eles, consegue-se realizar a pulverização e o monitoramento do terreno com muito mais rigor e praticidade, otimizando o trabalho dos produtores.

Essa facilidade é possível com o uso do Drone Pro. O equipamento representa um método limpo para a aplicação de defensivos líquidos, sementes ou agentes biológicos, gerando uma economia de 30 a 40% em relação às técnicas tradicionais.

Essas e outras ferramentas fazem parte do portfólio da Vivo Empresas para o agronegócio. Com essas inovações, sua fazenda se prepara para enfrentar os desafios do futuro e permanecer competitiva frente às transformações do mercado.

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Até a próxima!

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