Qual é o impacto do Clean Label no setor alimentício?

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O consumidor da atualidade está cada vez mais interessado em saber de onde vêm os alimentos que consome, como foram produzidos e o quão saudáveis são. É nesse contexto que surgiu o conceito de clean label, ou rótulo limpo, em Português.

Enquanto cliente, quem nunca ficou preocupado com a lista extensa de ingredientes ao ler uma etiqueta? Muitas vezes, são nomes científicos e técnicos que a maioria das pessoas não sabe o que quer dizer. Isso gera insegurança e desconfiança. 

A primeira coisa que vem à cabeça é que os itens desconhecidos são conservantes, corantes ou aromatizantes artificiais, sobretudo porque, de fato, na maioria das vezes, são componentes relacionados ao processamento industrial. E mais, essa dificuldade de compreensão acontece tanto com alimentos ditos “saudáveis” como “não saudáveis”. 

A linguagem técnica faz com que os consumidores preocupados com a saúde sintam dúvidas sobre suas escolhas. É a partir daí que algumas empresas decidiram apostar em rótulos cada vez mais transparentes, curtos e que indiquem o que realmente está sendo comprado.

No entanto, é importante destacar que ser considerado clean label não diz respeito apenas à clareza nas etiquetas. Além de mostrar o que está incluído na sua composição, a informação deve ser fácil de entender, e o produto deve possuir poucos ingredientes e ser o mais livre possível de aditivos químicos. 

Quer entender mais sobre o assunto e saber como isso pode impactar negócios do ramo alimentício? Então fique conosco, pois vamos discutir neste artigo os seguintes assuntos:

  • O que é clean label?
  • O potencial do mercado de comida saudável no Brasil
  • As vantagens de investir nesse setor
  • O que diz a Anvisa 
  • Alguns cases de sucesso
  • Os cuidados ao entrar no segmento

O que é clean label?

Antes de tudo, é importante frisar que não há uma definição rígida sobre o que é o clean label. O que existe é uma linha norteadora para categorizar os produtos alimentícios que são considerados mais saudáveis e cujos rótulos são transparentes e fáceis de entender. 

Alguns definem como artigos que têm poucos ingredientes, com itens o mais natural possível, ou seja, sem processamento ou, então, orgânicos. Segundo o Institute for Food Technologists, sociedade científica internacional que reúne profissionais do setor de alimentos, o “rótulo limpo” pode ser usado em itens que utilizam o mínimo de componentes possíveis, sejam considerados saudáveis pelos consumidores e, além disso, tenham fácil assimilação. 

Em outras palavras, pode-se considerar tais produtos quando os consumidores reconhecem facilmente o que eles contêm e os qualificam como benéficos à saúde. Sendo assim, incluem comidas cuja fórmula não leva coloração, sabor artificial ou aditivos químicos. 

Não se sabe ao certo a origem do termo, mas a popularização aconteceu a partir de 2015, quando a publicação Food Business News identificou o clean label como a tendência naquele ano. Em 2017, ganhou notoriedade o Clean Label Project, ONG americana focada em estudar os rótulos e identificar incoerências entre o que está escrito e o que realmente há nos componentes. 

Um dos motivos que levaram a instituição a ganhar as manchetes dos jornais foi essa pesquisa indicando que alimentos para bebês continham muito arsênio — substância tóxica. O impacto negativo na opinião pública foi imediato, o que contribuiu com o aumento da curiosidade dos consumidores em relação ao chamado “rótulo limpo”.

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Cresce adesão à alimentação saudável no Brasil

Vimos que, em resumo, o clean label é uma denominação da indústria para comidas e bebidas saudáveis, seguras e sustentáveis. Dessa forma, é essencial relacionar o conceito com o fato de o setor ser um dos mais importantes da economia, com tendência de crescer mesmo em momentos de crise.

Em solo nacional, por exemplo, a indústria alimentícia e de bebidas cresceu 16,9%, em faturamento, em 2021, se comparada ao ano anterior. Isso representou uma receita de R$ 922,6 bilhões, o que equivale a 10,6% do PIB do Brasil. Os dados são da Associação Brasileira da Indústria de Alimentos (Abia) e foram divulgados em fevereiro de 2022. 

Dentro desse gigantesco mercado, estão os consumidores que buscam produtos mais salutares ou com características específicas, como baixa caloria, sem glúten, vegetariano, com menos açúcar ou sem gordura saturada. Esse público de nicho é cada vez maior, o que gera inúmeras oportunidades de negócios. 

Um levantamento feito em fevereiro de 2021, pela Associação de Promoção dos Orgânicos (Organis), indicou que o mercado de orgânicos cresceu 30% em 2020, atingindo R$ 5,8 bilhões em movimentação. Outra pesquisa mais recente do instituto, de fevereiro de 2022, mostrou que 31% dos brasileiros dizem consumir orgânicos e a principal motivação (73%) é a preocupação em melhorar a saúde. 

De acordo com o Euromonitor Internacional, em pesquisa de março de 2021, que o setor de alimentação saudável no Brasil está em franca expansão e deve crescer 27% até 2025. Segundo o estudo, as vendas desses produtos alcançaram R$ 100 bilhões em 2020.

Produtos brasileiros ganham rótulos limpos 

Percebemos, portanto, que o mercado é promissor. Algumas empresas, de olho nas oportunidades, já saíram na frente. Produções bem brasileiras fazem sucesso, como a castanha de caju e as carnes vegetais. 

Entre essas companhias, há as que apostam em tecnologias como inteligência artificial e análise de dados para criar artigos atrativos e considerados clean label. Vamos a alguns exemplos: 

A Tal da Castanha 

Um dos diferenciais, segundo a empresa, é justamente o fato de ser clean label, ou seja, no caso deles, é não usar conservantes na fórmula. Um dos desafios foi fazer o artigo ser competitivo, mas, ao que tudo indica, foram vitoriosos. O faturamento da companhia pulou de R$ 27 milhões, em 2019, para R$ 45 milhões, em 2020. E, para 2022, a expectativa é chegar aos R$ 90 milhões.

Fazenda do Futuro 

O setor de carne vegetal anda a todo vapor e uma das marcas que ganhou notoriedade nas prateleiras foi a Fazenda do Futuro. A foodtech é avaliada em R$ 2,2 bilhões e recebeu um aporte de 300 milhões em 2021.

Para conquistar o mercado internacional, a empresa investiu em tecnologia, mudou a fórmula dos hambúrgueres e reduziu a quantidade de ingredientes. Isso tudo com objetivo de ser cada vez mais clean label. 

Amazonika Mundi

Também no ramo das foodtech, em 2020, surgiu a Amazonika Mundi, que aproveita a fibra do caju para fabricar carne vegetal. Não usam glúten, lactose, conservantes e nenhum item modificado geneticamente.

Entre diversos produtos, um dos pontos centrais — e considerado orgulho da empresa — é ser clean label que, segundo os fundadores, mostra que a produção é toda baseada nos ingredientes identificados pelos consumidores como “comida de verdade”. 

Cajueiro do Brasil 

A Cajueiro do Brasil é outro exemplo de negócio que adotou o conceito de rótulo limpo em seus artigos. Ela produz leite vegetal somente com água e castanhas, sem gomas, estabilizantes ou conservantes. Assim, segue a tendência da alimentação saudável, em que “menos é mais”. 

Pic-Me

A startup Pic-Me apostou nos lanches saudáveis ao fazer chips assados e purês de frutas. A linha condutora é o rótulo limpo, com informações transparentes e itens naturais. 

Atualmente, são cerca de 30 artigos seguindo essa filosofia. De acordo com a empresa, a produção foca em simplicidade, transparência, ingredientes naturais e mínimo processamento. 

Nutrella 

A Nutrella, linha de pães da gigante alimentícia Bimbo, entrou de cabeça no setor de saudáveis. No portfólio, agora estão os plant-based e clean label. Sendo assim, os rótulos passaram a ter informações claras, sem termos técnicos, para a melhor compreensão dos consumidores. 

Além disso, segundo a empresa, os pães são feitos sem aditivos químicos ou conservantes e possuem poucos ingredientes. A mudança veio acompanhada de um reposicionamento de marca com campanhas online e off-line. 

O que diz a Anvisa 

Enfim, os exemplos acima são apenas uma pequena amostra do tamanho do mercado para produtos com filosofia clean label. No entanto, é importante entender o que a lei diz sobre o assunto. 

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) é o órgão responsável por regular e fiscalizar os rótulos. Segundo a legislação brasileira, os ingredientes alimentícios descritos devem incluir todas as substâncias empregadas na fabricação. 

Portanto, qualquer produto adicionado intencionalmente com finalidade tecnológica e sem valor nutricional, como os aditivos, deve constar na embalagem. Basicamente, os rótulos precisam ser completos e informar a verdade. 

Não podemos dizer que isso é uma novidade. Afinal, portarias como o Decreto-Lei nº 986/1969 e a Resolução RDC nº 259/2002 já tratavam do assunto. Tais normas tentam coibir qualquer veiculação de informações sobre ingredientes que sejam falsas, incompletas ou que induzam o consumidor ao erro. 

A diferença agora é que surgiram cada vez mais pessoas interessadas em saber a sobre os rótulos e consumir produtos saudáveis. No mesmo sentido, há as empresas que viram um mundo de oportunidades dentro da atmosfera de sustentabilidade. 

A Anvisa, por sua vez, segue lançando novidades na categorização dos rótulos. Em outubro de 2020, aprovou uma série de medidas para melhorar a clareza dos dados. Uma delas foi autorizar o destaque das informações nutricionais na parte frontal das embalagens

Nesse mesmo sentido, a agência colocou à disposição dos profissionais do ramo de alimentos uma ferramenta que facilita a busca por informações relacionadas aos aditivos. A ação foi uma parceria com a Microsoft, por meio da tecnologia interativa Power BI.

Ações de marketing devem ser cautelosas 

Vimos que um ponto central dos produtos clean label é usar ingredientes naturais e reconhecidos facilmente pelos consumidores. Que não passaram por processamento e não contam com conservantes ou aditivos artificiais. 

Por outro lado, não existe uma definição clara, assim como também não há uma legislação específica. A própria Anvisa reconhece essa lacuna e isso se traduz em denúncias feitas à Gerência-Geral de Alimentos (GGALI), setor responsável pelo registro de alimentos dentro do órgão. Enfim, muitas empresas querem surfar a onda sustentável e saudável, sem realmente promoverem uma mudança honesta. 

Um negócio que quer ter o rótulo limpo deve ter cautela na comunicação, pois a transformar ou criar novos artigos vai exigir um trabalho minucioso. Os itens mais naturais exigem armazenamento e transporte diferenciado. Dessa forma, vai ser preciso investir em tecnologia e pesquisa para adaptação. 

Por fim, igualmente importante é que a mudança não seja apenas uma ação de marketing. Será preciso uma renovação realmente sincera nos produtos. Isso porque, com o aumento da conectividade e a disseminação acelerada de informações pelas redes sociais, querer enganar o consumidor é uma atitude cada vez mais arriscada. Afinal, a reputação da empresa é tudo. 

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Até a próxima!

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